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A Tale of Two Sisters e a Importância da Fotografia

Fotografia
Fonte: imdb

“Nós escrevemos histórias com a luz e a escuridão, com o movimento e as cores. É uma linguagem com seu próprio vocabulário e com ilimitadas possibilidades de expressar nossos pensamentos e emoções.”

Diria  Vittorio Storaro, um dos diretores de fotografia mais conceituados do mundo e responsável por inúmeras obras de sucesso, expressando bem a importância deste trabalho na realização de um filme.

Um dos pontos que vale, e muito, a ser destacado no cinema coreano é a incrível capacidade que os diretores possuem de dar vida à imaginação do autor original da obra, seja o roteirista, em uma obra original ou mesmo o escritor da inspiração, se o caso a obra ali for uma adaptação, tudo através de sua fotografia. Seja por meio de planos criativos, enquadramentos diferenciados, externas deslumbrantes, o resultado é a sensação de que cada cena foi feita especialmente para envolver o espectador, enriquecendo a experiência cinematográfica.

Muitos filmes poderiam ser citados nesse texto, mas A Tale of Two Sistster possui uma fotografia tão singular, que se torna um fator de grande embasamento para corroborar com a ideia de grande trabalho de um diretor.

Explicando um pouco sobre a história do filme, Soo-Mi (Im Soo-Jung) e Su-Yeon (Moon Geun-Young) são duas irmãs que retornam para casa depois de uma longa permanência em hospital, devido ao trauma sofrido depois da morte da mãe, assim voltando a morar com o pai Moo-Hyeon (Kim Kap-Soo) e agora com a madrasta Eun-Joo (Yum Jung-Ah).

As duas irmãs não gostam nem um pouco da madrasta e o sentimento parece ser recíproco, às fazendo viver uma intensa desconfiança, mas pensando em seu pai, as duas são obrigadas a suportarem o relacionamento.

Logo a personalidade forte da irmã mais velha Soo-Mi entra em rota de colisão com a Eun-Joo, já que a mesma acredita que sua irmã esteja sendo alvo de maus tratos, pela madrasta. Soo-Mi tenta defender sua irmã, mas coisas inexplicáveis começam a ocorrer na casa, tornando a vida das meninas um inferno.

A Tale of Two Sisters é baseado em uma lenda do folclore coreano, da época da Dinastia Joseon, chamada Janghwa Hongryeon Jeon “장화홍련전” (literalmente, A História de Janghwa (Flor Vermelha) e Hongryeon (Lotus Vermelha)). A história contada é de duas irmãs que perdem a mãe e veem seu pai viúvo se casando com outra mulher. Esta por sua vez sempre que pode abusa das meninas. Depois de muitos maus tratos, as irmãs acabam morrendo, mas voltam na forma de fantasmas para atormentar a vida da madrasta, se vingando de todos os abusos sofridos.

Fonte: Changbi Publishers

A história é uma prosa de tema recorrente em fábulas do mundo todo, como as dos irmãos Grimm. A história das irmãs que perdem a mãe e acabam sofrendo nas mãos de uma madrasta má, já serviu de inspiração para muitas mídias, incluindo filmes não asiáticos, o Filme estadunidense O Mistério das Duas Irmãs, de 2009, é baseado na obra coreana.

As cenas em sua maioria foram filmadas no plano médio, mas alguns enquadramentos bem definidos que dão tom a história, como quando o diretor quer mostrar o ambiente em que os personagens se encontram, para dá-lo um foco maior. Em algumas partes do filme, principalmente do meio para o final, o diretor faz uso de ângulo alto (Plongée) e ângulo baixo (Contra- Plongée), afim de passar uma ideia de superioridade ou inferioridade, ângulo baixo e alto respectivamente, do personagem na cena.

Fotografia - Plongée

Fonte: Filmfed

Também é importante destacar os fundos e as cores usadas em cada enquadramento do filme, apesar do tom escuro, muitas vezes indicando noite, o diretor opta por tornar os fundos muito coloridos, um pouco diferente do que se espera de um filme de suspense/terror. E cada paleta ali possui a sua mensagem. Da para se notar o uso do vermelho e cores quentes para retratar cenas de mais tensão, enquanto o azul, uma cor fria, é escolhida para transmitir uma sensação de calma, ou a tranquilidade antes do conflito.

A sensação é de que cada detalhe foi pensado estrategicamente, o vermelho do vestido da garota, sugere um possível perigo; o azul nas portas da pia, provavelmente usado para chamar a atenção do espectador e focar nessa área; o vestido verde na outra garota da cena, é outro artificio do diretor para puxar a atenção do espectador, destacando a personagem na cena. Se constata então pelo plano, foi de fato para dar maior destacamento ao fundo do cenário.

Fonte: imdb

Fonte: Quarter to Three

Realçar o cenário na fotografia também funciona para dar mais vida ao ambiente, o quarto da Su Yeon e a tapeçaria da sala de jantar, são dois dos cenários mais destacados, não só pelas cores usadas, já que o branco e o verde contrastam com a escolha de cores para outros cenários, como também devida a importância dos lugares na história do filme.

Fonte: imdb

Importante citar a ligação que a tapeçaria da sala faz com o cenário externo do lugar onde os personagens moram, conectando também com uma ideia de arvore genealógica e família, um dos conceitos trabalhados na história.

Fonte: imdb

Nestas partes citadas, vimos como a “Mise en scène”, a disposição de objetos do cenário e o arranjo dos artistas em uma cena, e a escolha de como eles vão ser recortados dentro da trama através da fotografia,  é outro fator determinante na mediação do filme com seu público.

Como um bom suspense, a profundidade de campo da câmera acaba sendo uma arma na hora de fisgar a atenção do seu espectador, nos momentos em que os planos se fecham, fazendo uma transição de plano médio para primeiro plano, os zooms ganham vida e a tensão só aumenta, se destacando no rosto as personagens, principalmente em uma cena emblemática da madrasta na cozinha.

Fonte: REEVESDQEGS

Um bom ingrediente, que se encontra muito nos filmes coreanos, é o “Cliffhanger” que da uma entortada na história (e na cabeça de quem ta assistindo), levando a um final, quase sempre, surpreendente. Nessa hora a fotografia de A Tale of Two Sisters não peca, e com cortes sublimes, quase que transicionais, aos poucos vai removendo as camadas de tensão, como se tivesse descascando uma banana, desvendando o mistério que assombra a casa da família.

Fonte: imdb

A Tale of Two Sisters possui uma fotografia tão marcante, que ela passa de um complemento para se tornar um personagem da história, tornando-a mais intrigante, angustiante e direcionando para um final muito surpreendente.

Um excelente filme de terror e uma boa pedida para sua noite!

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Já viu A Tale of Two Sisters? Quer dica de outros filmes para assistir? Clique nesse link:

3 filmes coreanos para maratonar no final de semana

Referências:

WATTS, Harris. On camera: o curso de produção de filme e vídeo da BBC. 3. Ed. São Paulo: Summus Editorial, 1990.

MASCELLI Joseph V. Os cinco Cs da cinematografia. São Paulo: Summus Editorial, 2010

https://asianwiki.com/A_Tale_of_Two_Sisters

https://deliriumnerd.com/2018/07/26/a-tale-of-two-sisters-terror-critica/+&cd=16&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

Media #4 – A Tale of Two Sisters – Mis-en-Scène effects

 

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Murilo
Murilo Machado, 27 anos, funcionário público, pesquisador de Cinema e Cultura por estudo, preguiçoso por natureza, grande apreciador de filmes/séries p&b, ost's de k-dramas/animes, roteiros bem escritos e café, não necessariamente nessa ordem. Adotei a cultura coreana em 2010 e nunca mais larguei.

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